Mundo
Guerra no Médio Oriente
Gaza. Mulheres e raparigas com "riscos crescentes de violência baseada no género"
Meninas obrigadas a casarem com os homens que as violaram. Pais que casam as filhas menores para poder alimentar outros filhos. Estes são alguns casos relatados Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA, sigla em inglês). A crise prolongada em Gaza, devastada pela guerra, "criou condições em que as mulheres e as raparigas enfrentam riscos crescentes de violência baseada no género", lê-se no mais recente relatório.
De acordo com este organismo da ONU, regista-se uma "escalada grave" no número de casos de casamento precoce e forçado no segundo trimestre deste ano. Duas práticas que são consideradas formas de violência de género pela ONU.
Um outro relatório, que apresenta testemunhos de 230 mulheres em campos de deslocados sobrelotados na cidade de Gaza e em Khan Younis, descreve a violência que sofreram ou testemunharam.
Outra mulher conta como no ano passado, na época da fome, "um homem casou a sua filha de 14 anos em troca de dois sacos de farinha para que ele e os seus [outros] filhos pudessem comer".
Mais seis mulheres em diferentes campos de deslocados partilharam histórias idênticas, o que teria sido impensável antes do início do conflito entre Israel e o Hamas em 2023.
O representante do UNFPA na Palestina assegura que "as tendências são chocantes".
Para além da morte de dezenas de milhares de pessoas, Nestor Owomuhangi refere que as circunstâncias extremas dos últimos três anos destruíram as estruturas sociais, pelo que "está tudo corroído... não há sistema".
Antes da guerra, as raparigas em Gaza superavam os rapazes em número e em desempenho em todos os níveis de ensino. Agora, com o encerramento prolongado das escolas, muitas crianças abandonaram a educação.
Para os rapazes, existe a pressão de encontrar trabalho para ajudar a sustentar as famílias.
Para as raparigas há uma maior preocupação com a segurança pessoal porque vivem no meio de estranhos, sem privacidade e as queixas de assédio e abuso sexual têm aumentado. Muitas famílias preferem casar as filhas para as proteger. No entanto, o relatório do Fundo da ONU para a População revela como as raparigas que ficaram órfãs durante a guerra estão especialmente vulneráveis.
Uma mulher num campo de refugiados na Cidade de Gaza, entrevistada para o relatório, conta que duas raparigas da sua família, com apenas 14 e 15 anos, tiveram que casar. “Os tios casaram-nas muito novas. Sabe porquê? Porque o pai e a mãe foram martirizados, e os tios queriam ver-se livres da responsabilidade e das despesas”. O Women's Affairs Center em Gaza (ONG palestiniana que trabalha com o UNFPA) relata casos de raparigas que foram obrigadas a casar e foram abusadas. Vemos a gravidez na adolescência disparar devido ao casamento infantil", afirma o representante do UNFPA na Palestina
A BBC entrevistou algumas famílias que tiveram que casar familiares entre si. Foi o que aconteceu com o jovem Zuhair, de 25 anos, que foi pressionado pelos tios a casar com uma prima, de 16 anos. O pai dela era o único tutor e foi morto num ataque aéreo israelita.
Um casal conta que permitiu que o filho de 17 anos se casasse com a prima de 16 anos depois de o pai da rapariga ter sido morto. A adolescente está agora grávida e não regressará à escola. “Ela precisa cuidar do filho”, diz o sogro, “a educação dela seria em vão."
As mulheres que ficaram viúvas ou cujos maridos estão detidos ou desaparecidos correm um risco maior de abuso e exploração sexual.
Segundo os relatos, quase um em cada quatro agregados familiares é agora chefiado por uma mulher — o dobro da proporção registada antes da guerra.
"Uma viúva andava à procura de uma tenda e um representante [do acampamento] disse-lhe: 'Dou-te uma tenda, pomos-te no nosso acampamento e podes vir ficar comigo esta noite'", lê-se no relatório do Fundo da ONU para a população.
As investigações da ONU sobre a segurança nos campos de refugiados revelam riscos acrescidos para mulheres e raparigas durante a noite.
As organizações de ajuda humanitária defendem que os perigos para as mulheres em Gaza poderiam ser substancialmente atenuados através da melhoria das condições humanitárias.
Há apelos para que Israel permita a entrada de abrigos de maior qualidade, bem como de equipamentos para melhorar as instalações sanitárias e o saneamento, além de iluminação.